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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Continua...


TODOS SE DIZEM GAÚCHOS
(Botando os pingos nos is, ou dando nome aos bois...)


Sem o "pingo", a bota e a espora; sem os arreios e os apeiros...
Não é cavaleiro!
Sem gado, sem o seu tirador, a adaga, a guaiaca; sem parar rodeio...
Não é boiadeiro!


Nas lides do campo, em campanha é guapo.  Não conhece o fracasso.
Franco é o sorriso, lhano é o abraço.
É ancho, precisa de espaço... duro na queda, taco no tiro,
"cuera" na dança e no laço!
Pode ser peão, capataz, estancieiro.
Branco, índio, caboclo, mestiços... mas há de ser fronteiriço!


Gaúcho não é destino.  É uma escolha.
Um modo vivo de ser...
Não fica enleado no pala, no poncho, no abrigo.  Despreza o perigo.
Pau puro!  Sem a labuta, a luta e o risco, não existe o prazer.
Colhão rajado!  Não é boi-carreiro.  É touro e, por inteiro!
Não é tramposo, não fura o jogo.  Não foge da cancha e do entrevero.


Depois da contenda, não desatina.  Tem os seios da prenda e o regaço da china.
Curte o vinho, o chimarrão e o churrasco.  O quente e o assado...
E nisso não se faz de rogado.  Na hora do aperto, também come o cru!
Pra cobrir o arcabouço?  Bombacha, chapéu e o lenço... no pescoço.
Sem isso está pelado, está nu...


Rica mistura!  Hispano-quechua, guarani-guaicuru, lusitano-charrúa...
Pra ele, tempo é uno.  Não tem dia, nem mês, não tem ano.
Pra junta/separar, curar e marcar o seu gado, "hai" que enfrentar o minuano.
Fronteirense sem fronteira.  É como a rês tresmalheira.
Dono, não é quem a vê por primeiro.  Mas quem lhe ferreteia o traseiro!


Biriba, é tropeiro de mula.  É vivente serrano.
Gaúcho é cavaleiro.  É especial!  No campo não tem rival.  É do plano.
Das coxilhas... na mão de quem vai rumo d'Argentina.
(olhando à direita - de soslaio - os nossos irmãos paraguaios,
Nós e eles, as mais das vezes, "garfados" pelos ingleses)
Seu ritual, seus costumes, os seus pagos?  O Rio Grande, o Uruguai...
O sonho!  Começa mas não termina.. a Província Cisplatina!
"A nação gaúcha"... não vingou.  A irmandade sulina!
Onde o dia é mais longo e mais claro, o luar... onde a grama germina.
O silêncio, o ermo, a imensidão... um mundo sem aflição, sem esquinas!


O gaúcho tem seu lado fraterno - más no lo quieras entiender mi hermano!
Erro na costura?  Despeito ou reação da mistura?
Use o tino.  Lhe chame de guasca e até casca-grossa (talvez isso possa)
Mas nunca de castelhano nem mesmo de correntino!
E é bom que se veja.  É fino no trato, mas fero na peleja.


Gado grande é boiada, gado miúdo é grei...
Não é o maior do mundo, mas nos pampas é o rei!
De usar, de falar, de folgar?  É o jeito, é vero!
Preconceito?
Nem tanto.  Não pense...
Bah, tche!  Se não são todos gaúchos,
de Irai ao Chuí, todos são Riograndenses.
E o forasteiros, se cuidem, pisem de manso...
- sejam maneiros, não sofram vexame.
Em casa de marimbondo, se mexe com um, remexe o enxame!


Carrega consigo, seus petrechos, seus brios e atavios.
O "38", assim como o dono, não mente, não nega fogo.  Ouviu?!
O cano é longo.  Curto é o pavio...
Smith, nagão, carga-dupla, azulado, mira especial.
Podes crer:  - não é "cascata"!  Pro tiro no lobisomen, usa balas de prata.
"No más", tudo em paz.  Palha  e fumo no picuá.. o punhal na cintura.
O mate, a bomba e a cuia, na matula.  No bornal?  Queijo e rapadura.
A capa?  Na garupa.  O rabicho?  No povoado.   O Pingo?  Sempre arreiado.
Gado gordo no pasto.  O pecúlio no banco.  E a família?
TRADICIONAL!




Fausto Corrêa