TODOS SE DIZEM GAÚCHOS
(Botando os pingos nos is, ou dando nome aos bois...)
Sem o "pingo", a bota e a espora; sem os arreios e os apeiros...
Não é cavaleiro!
Sem gado, sem o seu tirador, a adaga, a guaiaca; sem parar rodeio...
Não é boiadeiro!
Nas lides do campo, em campanha é guapo. Não conhece o fracasso.
Franco é o sorriso, lhano é o abraço.
É ancho, precisa de espaço... duro na queda, taco no tiro,
"cuera" na dança e no laço!
Pode ser peão, capataz, estancieiro.
Branco, índio, caboclo, mestiços... mas há de ser fronteiriço!
Gaúcho não é destino. É uma escolha.
Um modo vivo de ser...
Não fica enleado no pala, no poncho, no abrigo. Despreza o perigo.
Pau puro! Sem a labuta, a luta e o risco, não existe o prazer.
Colhão rajado! Não é boi-carreiro. É touro e, por inteiro!
Não é tramposo, não fura o jogo. Não foge da cancha e do entrevero.
Depois da contenda, não desatina. Tem os seios da prenda e o regaço da china.
Curte o vinho, o chimarrão e o churrasco. O quente e o assado...
E nisso não se faz de rogado. Na hora do aperto, também come o cru!
Pra cobrir o arcabouço? Bombacha, chapéu e o lenço... no pescoço.
Sem isso está pelado, está nu...
Rica mistura! Hispano-quechua, guarani-guaicuru, lusitano-charrúa...
Pra ele, tempo é uno. Não tem dia, nem mês, não tem ano.
Pra junta/separar, curar e marcar o seu gado, "hai" que enfrentar o minuano.
Fronteirense sem fronteira. É como a rês tresmalheira.
Dono, não é quem a vê por primeiro. Mas quem lhe ferreteia o traseiro!
Biriba, é tropeiro de mula. É vivente serrano.
Gaúcho é cavaleiro. É especial! No campo não tem rival. É do plano.
Das coxilhas... na mão de quem vai rumo d'Argentina.
(olhando à direita - de soslaio - os nossos irmãos paraguaios,
Nós e eles, as mais das vezes, "garfados" pelos ingleses)
Seu ritual, seus costumes, os seus pagos? O Rio Grande, o Uruguai...
O sonho! Começa mas não termina.. a Província Cisplatina!
"A nação gaúcha"... não vingou. A irmandade sulina!
Onde o dia é mais longo e mais claro, o luar... onde a grama germina.
O silêncio, o ermo, a imensidão... um mundo sem aflição, sem esquinas!
O gaúcho tem seu lado fraterno - más no lo quieras entiender mi hermano!
Erro na costura? Despeito ou reação da mistura?
Use o tino. Lhe chame de guasca e até casca-grossa (talvez isso possa)
Mas nunca de castelhano nem mesmo de correntino!
E é bom que se veja. É fino no trato, mas fero na peleja.
Gado grande é boiada, gado miúdo é grei...
Não é o maior do mundo, mas nos pampas é o rei!
De usar, de falar, de folgar? É o jeito, é vero!
Preconceito?
Nem tanto. Não pense...
Bah, tche! Se não são todos gaúchos,
de Irai ao Chuí, todos são Riograndenses.
E o forasteiros, se cuidem, pisem de manso...
- sejam maneiros, não sofram vexame.
Em casa de marimbondo, se mexe com um, remexe o enxame!
Carrega consigo, seus petrechos, seus brios e atavios.
O "38", assim como o dono, não mente, não nega fogo. Ouviu?!
O cano é longo. Curto é o pavio...
Smith, nagão, carga-dupla, azulado, mira especial.
Podes crer: - não é "cascata"! Pro tiro no lobisomen, usa balas de prata.
"No más", tudo em paz. Palha e fumo no picuá.. o punhal na cintura.
O mate, a bomba e a cuia, na matula. No bornal? Queijo e rapadura.
A capa? Na garupa. O rabicho? No povoado. O Pingo? Sempre arreiado.
Gado gordo no pasto. O pecúlio no banco. E a família?
TRADICIONAL!
Fausto Corrêa
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